Deitado no chão

Hoje eu deitei no chão da sala para aliviar a dor nas costas – e mesmo com a temperatura beirando o zero lá fora, o chão de carpete não estava frio, estava confortável até. Por um instante lembrei-me de quando eu era criança e costumava deitar no chão da cozinha para aliviar o calor do verão.

– Levanta desse chão sujo, menino!” – devo ter ouvido isso centenas de vezes.

Brincando na rua, eu deitava na calçada e me lembro da sensação da umidade que subia de cada frestinha onde o mato insistia em crescer.

Com o pneu do carro sendo trocado numa estrada vazia, eu deitei no asfalto para experimentar um tipo peculiar de liberdade.

Certa vez, atropelado enquanto andava de bicicleta, fiquei deitado no chão sem conseguir reconhecer o rosto de quem me socorria por causa das lágrimas que afogavam minha visão.

Dormi no chão da barraca acampando.

Deitei no fundo da piscina vazia.

Deitei no chão de terra do campinho sentindo o suor do futebol grudar a poeira no meu corpo.

O chão apesar de comum sempre parece ser um lugar desconhecido.

Passei um período da minha adolescência dormindo no chão porque não tínhamos condições de ter cama para todos.

Quando adulto, dormi no chão porque a cama ainda não havia sido entregue pela transportadora da mudança.

Também dormi no chão da cozinha quando trocaram o piso do apartamento.

Quando meu coração foi partido pela primeira vez, eu deitei no chão da área de serviço pra chorar.

Desmaiei no chão do banheiro porque enchi a cara.

Com os amigos eu deitei no chão da sala pra assistir um filme.

No parque eu deitei na grama para esquentar o corpo num dia frio de outono.

Na praia eu deitava na areia para não fazer nada.

No mar, às vezes eu deitava na minha prancha imaginando que a superfície da água também era um tipo de chão.

Uma vez subi uma montanha e lá no alto gelado eu deitei numa pedra quentinha para sentir o sol no final da tarde.

Às vezes cansado depois de um dia longo de trabalho, eu deitava no chão da varanda para tentar recobrar a sanidade que quase havia sido tirada de mim pela cidade lá fora.

Deitei no chão muitas vezes: para dormir, descansar, ter prazer, amar, sofrer, meditar, refletir, esquecer, relembrar… às vezes só pra ver as nuvens lá no alto ou uma aranha andando no teto.

Já vi gente deitada no chão porque não tinha onde morar. Já vi gente baleada deitando no chão para nunca mais levantar. Já vi gente deitada no chão para protestar e gente deitada no chão quando a polícia impunha seu ódio disfarçado de autoridade.

Às vezes deitar no chão é proibido. Às vezes é brincadeira. Às vezes  é terapia. Às vezes é a única opção.

Deitar ao chão desperta algo com o qual não estamos exatamente habituados. Dependendo do contexto pode representar libertação ou precariedade, alívio momentâneo ou o fim.

Deitado no chão, o mundo parece um pouco diferente.

Aqui, agora,  deitado no chão da sala, escrevendo este texto no celular, pensei que seria uma ideia interessante levantar estas questões:

Você costuma deitar no chão?

E se você deitar no chão agora onde você está, o que será que sua mente vai pensar?

Acho que vale pensar sobre isso, quem sabe, deitado no chão.

Luciano Laranjeira Escrito por:

Olá, meu nome é Luciano Laranjeira e eu produzo conteúdo para internet. Além deste blog, você também pode encontrar mais coisas que talvez lhe interessem no meu canal no YouTube ou no meu perfil no Instagram.

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